O misticismo em torno de uma lenda da cidade

A capela túmulo de Maria Bueno, já na primeira rua do Cemitério Municipal já não tem mais espaços para receber placas com frases demonstrando a gratidão por graças recebidas. Desde a morte de Maria Conceição Bueno (Morretes, 2/12/1864 – Curitiba, 21/01/1893), que os mais diferentes milagres são atribuidos a esta personagem fascinante do universo curitibano. Filha de família humilde, nascida em Morretes, Maria Bueno veio ainda jovem para Curitiba. Aqui foi empregada doméstica e teve vários envolvimentos sentimentais. Despertando paixão num anspeçada do Exército, Ignácio José Diniz e nele provocando ciúmes terríveis, acabou assassinada nas proximidades da praça Osório, onde hoje passa a Avenida Vicente Machado. xxx Apesar de todo o folclore e misticismo que cercam Maria Bueno, a sua vida ainda foi pouco pesquisada, e estudada. Paulo Avelar, 63 anos, paulista de Iguape, mas desde 1940 residindo em Curitiba, escritor e homem de rádio e televisão, quando trabalhou no roteiro da telenovela para o Canal 6, baseou-se especialmente num livro que um autor alemão escreveu sobre Maria Bueno e em jornais da época. Alguns anos antes, o jormalista e também dramaturgo Walmor Marcelino, debruçou-se sobre o personagem Maria Bueno, mas de um ponto de vista político ao escrever sua peça “Os fuzis de 1884”, que abordava a revolução federalista no Paraná. O enfoque que Marcelino, intelectual de esquerda, com obra das mais conscientes e coerentes, foi tão profundo em termos críticos que a sua peça foi proibida pela Censura, quando já se encontrava em fase de produção. Em 1974, Oracy Gemba, amigo e companheiro de ideais políticos e artísticos de Marcelino entre os anos 50/60, fez a sua própria peça sobre Maria Bueno, que em maio de 1974 estrearia no auditório Salvador de Ferrante. A propósito, Gemba recorda: – “Eu procurei dar um tom também social a personagem, analisando especialmente o aspecto da moça do Interior, que vem para a cidade trabalhar como doméstica e acaba envolvendo-se sexualmente em muitas aventuras.” Paulo Avellar, fascinado pela grandeza da personagem, diz: – “Maria Bueno era uma mulher fora de série. Para a época em que viveu, representou um significado novo na sua categoria social.” Os milagres atribuídos a Maria Bueno começaram a surgir logo após a sua morte, quando uma de suas amigas, paraplégica, levando uma rosa vermelha ao seu túmulo, sentiu-se curada. Ao longo de 94 anos, os milagres multiplicaram-se. Embora a Igreja nunca tenha se pronunciado a respeito – de tempos em tempos ensaia-se campanhas de beatificação de Maria Bueno (processo dos mais demorados) – o fato é que para o povo, ela é uma Santa. Para sentir isto, basta visitar o seu túmulo no Cemitério Municipal, sempre rodeado de velas, com pessoas emocionadas, fazendo orações e pedindo graças. Uma irmandade, presidida pela sra. Adelaide Azevedo, cuida da capela e faz hoje uma campanha para a construção da Casa de Maria da Conceição Bueno, solicitando doações que podem ser feitas na conta 34071-9 do Banco do Estado do Paraná, agência Muricy. LEGENDA FOTO: O túmulo de Maria Bueno, no Cemitério Municipal, é ponto de romaria de fiéis.

Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Tablóide
2
22/02/1987

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