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ave santa maria bueno!

Ali eu não fico. Nunca. Nem morta.

Se for pra fincar as aspas no inferno, que seja bem longe dali.

Peço, portanto, perdão às couves de Fräulein G., que ali vivem. Lindas, um verdadeiro verde mimo! Plantadas, geometricamente alinhadas no pequeno jardim que orna o jazigo cor de prata.

Pois ao invés dos gladíolos e dos lírios, dos cravos ou das palmas de Santa Rita, Fräulein G., em vida, apreciou, eu diria quase amou, as couve-flores: ensopadinhas, na salada, com alho, ah com alho!… Estão lá, por trás das caprichosas grades estilo rococó, chamando a atenção dos passantes do Municipal. Distintos senhores com suas esposas em roupa de domingo, crianças com balões pinks, casais, e as viúvas discretas e solenes. Uma festa.

Fizeram um último desejo da saudosa Fräulein G, adornando e nutrindo a terra escura de sua última morada com a apreciada espécie vegetal – Botrytis cauliflora. Sabe-se lá se os famélicos desviventes não se alimentam de sua própria terra?

Esquecendo as mazelas, os que transitam pelo local, impossibilitados de se aproximarem da pequena, exuberante e inatingível horta, perplexos e sem culpa alguma, detêm-se do lado de fora das grades, e olhando o excêntrico jardim segredam entre si:

– Humm… que bela salada não dariam, heinn?!

Mas voltando, ali eu não fico.

Ainda se fosse pela companhia da Santa Maria Bueno, valeria o sacrifício. Escutar as romarias diárias, os votos, ex-votos, as centenas de velas flamejantes e ela, ela! Nossa Evita, não na Recoleta, mas ali salvando e olhando pelos descamisados, do alto impávido da cúpula da capelinha azul clara. Traje de noiva bordado, vestido sobre um impassível manequim de vitrine, guarda a cidade por cima do amarelo-monótono dos muros do campo santo.

Na capelinha, flores de plástico, regalitos, pedidos dobrados em papéis, segredos, e bem ao centro, no altar úmido e sombrio, ela, misericordiosa olha através do retrato desbotado.

A anã de avental, solene cuida de tudo, administra as visitações:

– Afasta, afasta! Esse ar está irrespirável, eu vou fechar a grade e aí ninguém entra mais! Olha a fila, eu vou fechar a grade! Escuta aqui, por que vocês não vão acender velas lá na Cruz das Almas? A anã sentinela, ameaça, cada vez que a pequena multidão comprime-se.

O povo se aperta e incensa o ar com a parafina das velas devotas, uma fumaça escura invade os corredores apertados.

Milagre, milagre! Alguém grita e a multidão se agita novamente, alguma beata puxa um terço. Ela, no alto da pequena cúpula em sua celeste expressão de manequim, aura e ilumina o céu cinzento das Mercês.

Já nem lembra mais daquela madrugada de 29 de janeiro em 1893. A cabeça degolada, separada do corpo, as muitas navalhadas encarnadas na pele pela sombra do ciúme do soldado da barbearia do oitavo regimento. E tudo isso, só porque desobedeceu e foi naquela noite ao bordel para encontrar as meninas. E tem quem atire pedra! Santa Maria Bueno! Eles nem sabem o que dizem.

Por ela, sim, eu até ficava, vendo a movimentação, aquele ofício diário, pensa que ser santo é fácil?

Mas quando lembro dos jambos, das carambolas e das mangas lá de Santo Amaro, quando lembro de Alfredinho ou da “Menina sem nome”, do aroma do jasmim quando sopra a viração, eu desisto. Vou pra lá.

Outro dia aquele fantasma do Raskólnikov me matou.

Machadinha embaixo do sobretudo, tudo igualzinho à literatura e pasmem, bem numa esquina iluminada do centro, todo mundo passando e nem aí:

– Finge que não vê, finge que não vê, disfarça.

(Idiossincrasia à parte, são coisas dessa cidade, e o escritor bem que avisou).

Assim, pra não morrer de novo, é que eu não fico. Vou pra lá.

Com o ar e o perfume da alma de alfazema de Maria Bueno.

Com seus cetins que me ofuscam, me encantam, e que eu levarei comigo, e lavarei nas águas doces de um rio cabralino, deslizando sobre o céu espelhado do sol. Sua rubra graça eu invocarei, rainha que é, a noiva da cidade.

Vou. E, finalmente livre, num último aceno, pedirei perdão à Fräulein G. e suas couve-flores.

Notas da autora:

. Maria Bueno nasceu no ano de 1864 em Curitiba. Foi brutalmente assassinada em 1893, aos 29 anos, pelo amante, o primeiro soldado e barbeiro do 8º Regimento de Cavalaria, Inácio José Diniz. Existem duas versões para o crime: a primeira, de que Diniz havia proibido que ela fosse ao bordel naquela noite. Ela foi e Diniz matou-a pela desobediência. Na segunda, Maria Bueno, que era lavadeira, ao entregar a roupa lavada, foi morta ao resistir à tentativa de Diniz estuprá-la. Maria Bueno teve uma vida sofrida e hoje está enterrada numa capela azul, no Cemitério Público de Curitiba. É venerada por muitos fiéis que, em romaria diária, acreditam que ela seja uma santa e que faça milagres;

. o jazigo com as couve-flores também existe, no mesmo cemitério.

Autora: jussara salazar

http://www.escritorassuicidas.com.br/edicao6_3.htm