Rubens Bueno estaria defendendo a tia-bisavó quando bateu em Requião!

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No final do ano 1892 começou o movimento, mais tarde chamado de Revolta da Armada, quando treze oficiais-generais do Exército e Marinha assinaram um manifesto intimando Floriano Peixoto, que assumira a Presidência da República em virtude da renúncia de Deodoro da Fonseca, a convocar novas eleições. Entre os que exigiam eleições estava um tio-bisavô do Roberto Requião de Mello e Silva, que era o vice-almirante Custódio José de Mello, e que junto com Luiz Felipe Saldanha da Gama refletiam o descontentamento da Marinha Brasileira. Esse vice-almirante, parente do governador Requião, tinha um “irmão torto” que morava em Curitiba. Como parente do nosso governador já era adepto ao nepotismo, usando de seu prestígio na República, nomeou o irmão-torto cabo da Policia em nossa cidade. O irmão-torto (Diniz de Mello) do vice-almirante Mello, tio-bisavó do Requião, morava na rua Campos Gerais, hoje rua Vicente Machado, na região da Delegacia do Trabalho.

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Maria Bueno, agora num grande bailado

Depois de chegar ao teatro e à televisão , Maria Bueno na dança! O projeto fascina Carlos Triencheiras, 48 anos, maitre do Ballet Guaíra. Desde que Oracy Gemba, responsável pela encenação da peça “Maria Bueno”, há 13 anos, lhe falou desta personagem curitibana, o coreógrafo português ficou fascinado pela sua densidade dramática e força como tema para um grande bailado de raízes profundamente curitibanas. Triencheiras ficou tão enstusiasmado com a possibilidade de fazer um ballet sobre Maria Bueno que, quando de sua última visita a Lisboa, conseguiu a doação dos figurinos das montagens de “Lôdo” e “Amor de Perdição”, cuja ação se passa no final do século passado, que podem servir, perfeitamente, para a montagem do bailado. Encaixotados, os ricos trajes – orçados em US$ 50 mil – já chegaram a Curitiba, transportados pela Varig. Só que o ballet “Maria Bueno” ainda não existe. Existe o projeto e o entusisasmo de Triencheiras, que aliás, há pelo menos três anos, vem tentando sensibilizar a diretoria do Teatro Guaíra para a sua importância. De raízes paranaenses, ao contrário de “O Romance das Quatro Luas”, com temática nordestina, em que pese a competência de Chico Buarque, Edu Lobo e Ferreira Gullar. xxx São múltiplos os aspectos que fascinam a montagem de um ballet em torno de Maria Bueno. Oracy Gemba, 50 anos, escritor e diretor de teatro desde a década de 60, considera que um dos melhores espetáculos que dirigiu foi justamente “Maria Bueno”, que permaneceu maio de 1974 em cartaz no auditório Salvador de Ferrante. A personagem-título era vivida por Tonica (Antônia Eliana Chagas), excelente atriz e também jornalista, ex-repórter de “O Estado do Paraná”, há 3 anos morando em São Paulo (hoje integra a equipe da revista “Afinal”). Ao lado de Tonica, atuaram em “Maria Bueno”, Elisabeth Destefanis (hoje afastada dos palcos, esposa do publicitário Paulo Vítola, 3 filhos), Lota Moncada (que deixou Curitiba), Sansores França, Luís Schwank (hoje premiado artista plástico), Roaldo dos Anjos (já falecido), Iara Sarmento, Aluísio Querobim, Angela Wogel, entre outros. Seis anos depois, em 1980, quando José Carlos Martinez (hoje deputado federal pelo PMDB, ex-malufista) assumiu a TV-Paraná (juntamente com o “Diário do Paraná”, que fecharia suas portas algum tempo depois), apoiou o projeto de implantar um núcleo local de teleteatro. E, mesmo sem patrocínio, bancou a produção de uma novela sobre Maria Bueno, com roteiro do veterano Paulo Avelar e direção de Roberto Menghini. Rodada quase toda em Morretes – cidade natal, aliás de Maria Bueno – a telenovela exigiu um grande esforço de intérpretes e técnicos. Gilda Elisa, boa atriz (esposa de José Basso, superintendente da Fundação Teatro Guaíra até o próximo dia 15 de março), foi escolhida para viver a personagem título. Sua mãe foi interpretada por Lala Schneider e o anspeçada Dinis, que foi o assassino de Maria Bueno, interpretado pelo ator paulista Nelson Morrison. O cantor Agnaldo Rayol, 49 anos, na época já em declínio profissional, se entusiasmou com a possibilidade de voltar a trabalhar como ator e veio fazer um dos galãs da novela, ao lado de Paulo Cardoso. Outros papéis importantes foram interpretados por Marilyn Miranda, Marli Teresinha, Airton Mueller, Lutero Almeida, irineu Adami, Zefe e Lafayete Queirolo e Alceu Honorio, também diretor de produção. Aliás, Honório enfrentou inúmeros problemas para a produção da telenovela, pois, na época, a TV-Paraná já enfrentava dificuldades técnicas, especialmente de equipamento. A trilha sonora foi criada por heitor Valente e Celso Locker (Pirata), sendo que Heitor inclusive bancou a edição de um compacto duplo, muito bem produzido, com as músicas da telenovela.

Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Tablóide
2
22/02/1987

A vida de Maria Bueno volta para os palcos curitibanos

Peça conta a história da personagem, uma mulher de personalidade, que povoa o imaginário do curitibano e é até cultuada como santa

Tragédia e comédia se encontram na peça Maria Bueno – A Santa (tipicamente) Curitibana, que estréia hoje, abrindo a temporada de 2007 do teatro Novelas Curitibanas. Uma pesquisa de César Almeida, que também assina a direção, deu início a criação da montagem, que trata da vida da controversa mulher, considerada santa por parte da população curitibana e que, como a maioria de suas contemporâneas, acabou sendo submentida aos caprichos dos senhorios. A história mostra uma mulher habituada a lutar pelo direito de comandar o próprio destino.

Só que nesta história, já se sabe, o final não é exatamente feliz. Maria Bueno foi vítima de um brutal crime passional e transformou-se em exemplo de coragem por não se conformar com sua triste sina de ser submissa. Seu túmulo, virou local de romaria que recebe agradecimentos deixados pelos que dizem ter alcançado graças por seu intermédio. Ela virou uma lenda da cidade, cultuada por pessoas sem distinção de credo ou condição social.

O diretor da montagem explica que o espetáculo traz uma preocupação do resgate histórico-sociológico de Curitiba e para ter material em mãos, já que a história ainda não está em livros, ele se valeu de fontes jornalísticas e relatos de populares, que se dizem agraciados pelas bênçãos de Maria Bueno. Também serviram de referência as montagens como Grato Maria Bueno, de Oraci Gemba (década de 1970), do falecido diretor Raul Cruz (década de 1980), e, na década de 1990, a montagem de Wellington Silva.

Esta será a terceira vez que Almeida analisa a questão da fé na atualidade. Primeiro foi Estrada do Pecado (2004), que mostrava a incoerência da fé cega no submundo da prostituição contemporânea. Depois veio São Sebastião (2005),  com o foco no preconceito da igreja católica com a questão homossexual versus a palavra de Cristo. Agora, Maria Bueno, ao resgatar a biografia da feminista histórica, ele se propõe a discutir a problemática feminina diante dos mitos da pureza e da honra em confronto com a hipocrisia das convenções sociais.

Na produção, está a companhia Rainha de 2 Cabeças Teatro e Dança, que há mais de vinte anos trabalho no resgate da cultura paranaense. A peça tem cenários de Geraldo Kleina, figurinos do estilista Alex Sandro e no elenco estão os atores Kassandra Speltri, Ludmila Nascarella, Caike Luna, Mateus Zucolotto e Carlos Vilas Boas.

A montagem foi um dos quatro trabalhos selecionados pelo edital do Programa de Fomento para o Teatro Novelas Curitibanas – Temporada 2007, que dividirão o apoio financeiro de R$200 mil oriundo do Fundo Municipal de Cultura. Até o mês de dezembro, o palco do Teatro Novelas Curitibanas abrigará ainda as peças Sobre Tempos Fechados, de Marcos Damaceno (Dama Produções Artísticas); O Amor, seja como for, de Fátima Ortiz (Pé no Palco Atividades Artísticas); e O Banho, de Fabiana Resende (Resende e Ribas Ltda).

Serviço
Maria Bueno – A Santa (tipicamente) Curitibana. De 17 de janeiro a 11 de fevereiro de 2007;  de quarta a sábado, às 21h, e aos domingos, às 20h.  Ingresso: uma lata de leite em pó. Teatro Novelas Curitibanas (R. Carlos Cavalcanti,1.222)

Homenagem à Maria Bueno, a “santa do povo”, fechou desfiles

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O estilista Silmar Alves fechou a 2ª edição do Paraná Business Collection, na sexta-feira, com uma emocionada homenagem à Maria Bueno, a prostituta assassinada pelo amante em 1893 e que se transformou em uma espécie de “santa do povo”, muito embora não tenha sido canonizada.

Com 13 anos de profissão e um nome consolidado no cenário da moda paranaense, Alves, que é professor no curso técnico de moda do Senai e no da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), já homenageou vários símbolos e personagens do estado, como Paulo Leminski e Dalton Trevisan.

O estilista conta que se emocionou várias vezes nas madrugadas em que se debruçou sobre a coleção, toda em tons de areia e vermelho vivo. A flor é um elemento simbólico de Maria Bueno.

Segundo a crença popular, teriam nascido rosas no local onde ela foi assassinada, na Rua Vicente Machado. O estilista escolheu o algodão e sobras de tecidos texturizados para o belo desfile de 28 looks, com cenário de rosas vermelhas. Mais uma vez, primou pelo trabalho artesanal – com aplicações de flores de crochê, bordados em canotilho e linha de algodão – e a alfaiataria – presentes em corselets e vestidos. A figura de Maria Bueno aparece como complemento estampando algumas peças. O cabelo das modelos seguiu o estilo chanel parecido com o que ela usava.

http://www.gazetadopovo.com.br/economia/conteudo.phtml?tl=1&id=793364&tit=Homenagem-a-Maria-Bueno-a-santa-do-povo-fechou-desfiles

ORAÇÃO DE MARIA DA CONCEIÇÃO BUENO

Na cruz Jesus foi crucificado…e vós…
Na cruz não fostes sacrificada,
Mas fostes sim, sacrificada sem o
Veredictum de um tribunal
Por um algoz terrível, pior ainda que Judas
Apenas raiava o dia de 29 de janeiro de1893
Quando o silêncio era profundo nesta
Cidade de Curitiba
Vós quando a vida sorria cheia de
Alegria e esperanças
Recebias como Jesus o amargor da traição
Recebia na vossa inocência o billhete
Falso da sentença, a sentença de morte…
Na emboscada da encruzilhada daquela
Madrugada
Vós morrestes em defesa da vossa honra,
De joelho morrestes, morrestes
Implorando ao Pai misericórdia
O Pai vos chamou, o povo chorou e vos
Santificou, hoje o chão do céu pisas
Mas em nossos corações ainda vives
E daqui ao Pai nosso Deus rogamos…
Dai a nossa protetora Maria da Conceição
Bueno força e poder…
Para que ela com sua imaculada bondade
Possa cada vez mais e mais ajudar a
Todos aqueles que a vós imploram.
Maria da Conceição Bueno, nossa
Protetora, nós vos agradecemos pelas
Milhares de graças que nos tendes
Concedido,
E com a mesma fé que vós, em preces,
Rogava a vossa madrinha, Nossa Senhora
Da Conceição, nós a vós rogamos…
Olhai por nós – olhai pelos que sofrem
Olhai pelos que vos imploram
Olhai pelas criancinhas, olhai pelos doentes
Olhai pela vossa irmandade
Olhai pela vossa Pátria, olhai por todos
Que assim seja
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo, Amém.

O misticismo em torno de uma lenda da cidade

A capela túmulo de Maria Bueno, já na primeira rua do Cemitério Municipal já não tem mais espaços para receber placas com frases demonstrando a gratidão por graças recebidas. Desde a morte de Maria Conceição Bueno (Morretes, 2/12/1864 – Curitiba, 21/01/1893), que os mais diferentes milagres são atribuidos a esta personagem fascinante do universo curitibano. Filha de família humilde, nascida em Morretes, Maria Bueno veio ainda jovem para Curitiba. Aqui foi empregada doméstica e teve vários envolvimentos sentimentais. Despertando paixão num anspeçada do Exército, Ignácio José Diniz e nele provocando ciúmes terríveis, acabou assassinada nas proximidades da praça Osório, onde hoje passa a Avenida Vicente Machado. xxx Apesar de todo o folclore e misticismo que cercam Maria Bueno, a sua vida ainda foi pouco pesquisada, e estudada. Paulo Avelar, 63 anos, paulista de Iguape, mas desde 1940 residindo em Curitiba, escritor e homem de rádio e televisão, quando trabalhou no roteiro da telenovela para o Canal 6, baseou-se especialmente num livro que um autor alemão escreveu sobre Maria Bueno e em jornais da época. Alguns anos antes, o jormalista e também dramaturgo Walmor Marcelino, debruçou-se sobre o personagem Maria Bueno, mas de um ponto de vista político ao escrever sua peça “Os fuzis de 1884”, que abordava a revolução federalista no Paraná. O enfoque que Marcelino, intelectual de esquerda, com obra das mais conscientes e coerentes, foi tão profundo em termos críticos que a sua peça foi proibida pela Censura, quando já se encontrava em fase de produção. Em 1974, Oracy Gemba, amigo e companheiro de ideais políticos e artísticos de Marcelino entre os anos 50/60, fez a sua própria peça sobre Maria Bueno, que em maio de 1974 estrearia no auditório Salvador de Ferrante. A propósito, Gemba recorda: – “Eu procurei dar um tom também social a personagem, analisando especialmente o aspecto da moça do Interior, que vem para a cidade trabalhar como doméstica e acaba envolvendo-se sexualmente em muitas aventuras.” Paulo Avellar, fascinado pela grandeza da personagem, diz: – “Maria Bueno era uma mulher fora de série. Para a época em que viveu, representou um significado novo na sua categoria social.” Os milagres atribuídos a Maria Bueno começaram a surgir logo após a sua morte, quando uma de suas amigas, paraplégica, levando uma rosa vermelha ao seu túmulo, sentiu-se curada. Ao longo de 94 anos, os milagres multiplicaram-se. Embora a Igreja nunca tenha se pronunciado a respeito – de tempos em tempos ensaia-se campanhas de beatificação de Maria Bueno (processo dos mais demorados) – o fato é que para o povo, ela é uma Santa. Para sentir isto, basta visitar o seu túmulo no Cemitério Municipal, sempre rodeado de velas, com pessoas emocionadas, fazendo orações e pedindo graças. Uma irmandade, presidida pela sra. Adelaide Azevedo, cuida da capela e faz hoje uma campanha para a construção da Casa de Maria da Conceição Bueno, solicitando doações que podem ser feitas na conta 34071-9 do Banco do Estado do Paraná, agência Muricy. LEGENDA FOTO: O túmulo de Maria Bueno, no Cemitério Municipal, é ponto de romaria de fiéis.

Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Tablóide
2
22/02/1987

Santa de fato mas não de direito (canônico)?

A contradição entre a crença dos devotos e o não reconhecimento da santidade da personagem curitibana pelo Clero, é o ponto de partida da peça Maria Bueno – A Santa (tipicamente) Curitibana, do diretor César Almeida, em cartaz no Teatro Novelas

As devotas e os devotos de Maria Bueno vieram a reverenciá-la, provavelmente, em algum momento frágil de suas vidas em que, por força da tradição e da cultura recebida sobre a “Santa” do Cemitério Municipal de Curitiba, aderiram ao culto. Aderiram porque esta opção lhes pareceu melhor ou porque suas súplicas a diferentes objetos de veneração já não davam resultados.  Para essas pessoas devotas, questionar os poderes de Maria Bueno estaria fora de cogitação. Para o Clero, porém, ela nunca foi Santa.

Essa contradição é o ponto de partida da peça Maria Bueno – A Santa (tipicamente) Curitibana, do diretor César Almeida com a Cia. Rainha de 2 Cabeças, em cartaz no Teatro Novelas Curitibanas, com  Kassandra Speltri  no papel de Maria Bueno. A peça não questiona a fé, mas o culto a Maria Bueno poderia ser relacionado ao que o filósofo David Hume (1711-1776), conhecido por provocar a crise da metafísica, denominaria um hábito mental sem fundamento real, resultado de um processo cultural.
Um dos aspectos mais instigantes da peça é o exame constante da liberdade sexual da personagem principal, justaposta à hipocrisia da sociedade e à banalização da fé. Essa ênfase na sexualidade, através dos dados biográficos sobre os muitos homens de Maria Bueno, ilustra o porquê da polêmica em torno de sua imagem. Espectadores mais emocionados poderiam até pensar que a peça difama Maria Bueno, mas longe de denegrir a sua imagem, César Almeida expõe como a Igreja rejeita a santidade da mulher, ao mesmo tempo em que a sociedade a vampiriza para satisfazer suas taras. Embora a peça elabore o caráter falso do curitibano, coerente com a biografia da protagonista, o tema da  intimidade podre das famílias é universal e intemporal.

Quando escrevi a reflexão para o livro comemorativo dos 20 anos da Cia. Rainha de 2 Cabeças, publicado em 2003,  disse que um dos desafios de César Almeida, como dramaturgo e diretor, poderia ser “ampliar a reflexão de seus públicos sobre as relações de poder entre os gêneros.” Foi justamente essa ampliação que gostei de encontrar no trabalho atual. O texto enfatiza a experiência singela da moça pobre que deixa Morretes e vem para Curitiba não só para tentar a sorte, mas porque foge da violência do próprio pai, que ironicamente prevê todas humilhações pelas quais ela passaria. Abusada pelo patrão Barão (Carlos Vilas Boas) e pela Baronesa decadente (Ludmila Nascarella) para pagar suas dívidas com sexo, violentada e, finalmente, vítima de um assassinato passional aos 29 anos, Maria Bueno morre sem viver um amor idealizado.

A Maria Bueno de César Almeida é uma mulher que lutou para se emancipar num mundo sem opções de emancipação. Neste sentido, a sua elevação a status de Santa é coerente com uma cultura messiânica, em que os oprimidos naturalmente buscam, nos mártires, conforto e forças para enfrentar suas desgraças pessoais. Seria enorme o impacto do assassinato de Maria Bueno sobre todas as mulheres de classe sócio-econômica inferior, as lavadeiras, prostitutas e empregadas domésticas abusadas por seus patrões e que encontraram, na moça decapitada e esquartejada pelo soldado machista, um símbolo espiritual.

* Margarida Rauen é diretora cênica, com vários trabalhos de crítica, roteiros de performance e pesquisa. É professora doutora em dramaturgia e encenação.

http://www.bemparana.com.br/index.php?n=16620&t=santa-de-fato-mas-nao-de-direito-canonico

ave santa maria bueno!

Ali eu não fico. Nunca. Nem morta.

Se for pra fincar as aspas no inferno, que seja bem longe dali.

Peço, portanto, perdão às couves de Fräulein G., que ali vivem. Lindas, um verdadeiro verde mimo! Plantadas, geometricamente alinhadas no pequeno jardim que orna o jazigo cor de prata.

Pois ao invés dos gladíolos e dos lírios, dos cravos ou das palmas de Santa Rita, Fräulein G., em vida, apreciou, eu diria quase amou, as couve-flores: ensopadinhas, na salada, com alho, ah com alho!… Estão lá, por trás das caprichosas grades estilo rococó, chamando a atenção dos passantes do Municipal. Distintos senhores com suas esposas em roupa de domingo, crianças com balões pinks, casais, e as viúvas discretas e solenes. Uma festa.

Fizeram um último desejo da saudosa Fräulein G, adornando e nutrindo a terra escura de sua última morada com a apreciada espécie vegetal – Botrytis cauliflora. Sabe-se lá se os famélicos desviventes não se alimentam de sua própria terra?

Esquecendo as mazelas, os que transitam pelo local, impossibilitados de se aproximarem da pequena, exuberante e inatingível horta, perplexos e sem culpa alguma, detêm-se do lado de fora das grades, e olhando o excêntrico jardim segredam entre si:

– Humm… que bela salada não dariam, heinn?!

Mas voltando, ali eu não fico.

Ainda se fosse pela companhia da Santa Maria Bueno, valeria o sacrifício. Escutar as romarias diárias, os votos, ex-votos, as centenas de velas flamejantes e ela, ela! Nossa Evita, não na Recoleta, mas ali salvando e olhando pelos descamisados, do alto impávido da cúpula da capelinha azul clara. Traje de noiva bordado, vestido sobre um impassível manequim de vitrine, guarda a cidade por cima do amarelo-monótono dos muros do campo santo.

Na capelinha, flores de plástico, regalitos, pedidos dobrados em papéis, segredos, e bem ao centro, no altar úmido e sombrio, ela, misericordiosa olha através do retrato desbotado.

A anã de avental, solene cuida de tudo, administra as visitações:

– Afasta, afasta! Esse ar está irrespirável, eu vou fechar a grade e aí ninguém entra mais! Olha a fila, eu vou fechar a grade! Escuta aqui, por que vocês não vão acender velas lá na Cruz das Almas? A anã sentinela, ameaça, cada vez que a pequena multidão comprime-se.

O povo se aperta e incensa o ar com a parafina das velas devotas, uma fumaça escura invade os corredores apertados.

Milagre, milagre! Alguém grita e a multidão se agita novamente, alguma beata puxa um terço. Ela, no alto da pequena cúpula em sua celeste expressão de manequim, aura e ilumina o céu cinzento das Mercês.

Já nem lembra mais daquela madrugada de 29 de janeiro em 1893. A cabeça degolada, separada do corpo, as muitas navalhadas encarnadas na pele pela sombra do ciúme do soldado da barbearia do oitavo regimento. E tudo isso, só porque desobedeceu e foi naquela noite ao bordel para encontrar as meninas. E tem quem atire pedra! Santa Maria Bueno! Eles nem sabem o que dizem.

Por ela, sim, eu até ficava, vendo a movimentação, aquele ofício diário, pensa que ser santo é fácil?

Mas quando lembro dos jambos, das carambolas e das mangas lá de Santo Amaro, quando lembro de Alfredinho ou da “Menina sem nome”, do aroma do jasmim quando sopra a viração, eu desisto. Vou pra lá.

Outro dia aquele fantasma do Raskólnikov me matou.

Machadinha embaixo do sobretudo, tudo igualzinho à literatura e pasmem, bem numa esquina iluminada do centro, todo mundo passando e nem aí:

– Finge que não vê, finge que não vê, disfarça.

(Idiossincrasia à parte, são coisas dessa cidade, e o escritor bem que avisou).

Assim, pra não morrer de novo, é que eu não fico. Vou pra lá.

Com o ar e o perfume da alma de alfazema de Maria Bueno.

Com seus cetins que me ofuscam, me encantam, e que eu levarei comigo, e lavarei nas águas doces de um rio cabralino, deslizando sobre o céu espelhado do sol. Sua rubra graça eu invocarei, rainha que é, a noiva da cidade.

Vou. E, finalmente livre, num último aceno, pedirei perdão à Fräulein G. e suas couve-flores.

Notas da autora:

. Maria Bueno nasceu no ano de 1864 em Curitiba. Foi brutalmente assassinada em 1893, aos 29 anos, pelo amante, o primeiro soldado e barbeiro do 8º Regimento de Cavalaria, Inácio José Diniz. Existem duas versões para o crime: a primeira, de que Diniz havia proibido que ela fosse ao bordel naquela noite. Ela foi e Diniz matou-a pela desobediência. Na segunda, Maria Bueno, que era lavadeira, ao entregar a roupa lavada, foi morta ao resistir à tentativa de Diniz estuprá-la. Maria Bueno teve uma vida sofrida e hoje está enterrada numa capela azul, no Cemitério Público de Curitiba. É venerada por muitos fiéis que, em romaria diária, acreditam que ela seja uma santa e que faça milagres;

. o jazigo com as couve-flores também existe, no mesmo cemitério.

Autora: jussara salazar

http://www.escritorassuicidas.com.br/edicao6_3.htm

Maria Bueno, a Santa de Curitiba

A divina e mágica Maria Bueno …
Nasceu num lugarejo sereno …
Chamado Morretes , no Paraná , perto do litoral ,
No século dezenove , de um jeito muito original !

Ela era a última menina de uma série de sete filhas

… Ela era a última destas sete maravilhas !
A superstição sempre comenta de uma forma natural ,
Que toda a sétima filha nasce com poder paranormal !

Quando era adolescente …
Maria , toda inocente …
Decidiu entrar para o convento …
Mas , os religiosos sem sentimento …

Mandaram a menina para Curitiba ,
Que era uma terra desconhecida ,
Para que ela cuidasse de um casal de idosos ,
Que eram velhos , porém caridosos !

Mas , este casal de idosos faleceu …
E a pobre Maria Bueno ficou no breu !
Então , ela decidiu trabalhar como lavadeira …
Porém , a vida não era brincadeira !
O dinheiro não dava para comprar pão e nem mel …
Então , ela foi obrigada a trabalhar num bordel !

Mas , um soldado psicopata e infeliz …
Chamado Diniz …
Se apaixonou pela Maria , vestida de meretriz !

Uma noite ele proibiu de um jeito cruel …
A amada de trabalhar no bordel !
Porém , Maria não obedeceu …
E o seu algoz se enfureceu …

Matando a pobre figura …
Sem piedade e sem ternura !
Com uma navalha , ele arrancou o pescoço de Maria ,
Causando na população muito medo e agonia !

Dias depois , o próprio Diniz …
Morreu da mesma forma infeliz …
Decapitado com muito ódio e raiva …
Por ordem do comandante Gumercindo Saraiva !

Hoje , Maria Bueno está enterrada num túmulo azul do Cemitério Municipal …
Ela é a santa do povo , que faz milagres de um jeito especial .

Observação : Este texto foi elaborado através de pesquisas históricas e de entrevistas com a população mais antiga .

Enviado por: Luciana do Rocio Mallon
Contato: fadapoesia@yahoo.com.br

Oração a Maria Bueno

“Minha querida Maria Bueno, Espírito Iluminado, Mensageira de Cristo na Terra, junto as criaturas vulneráveis como nós! Eu venho pedir o auxílio certo para as minhas dificuldades, pois tenho certeza que serás a minha protetora e me ouvirás, como sempre fazes quando estou desamparado(a). Com a tua assistencia, meu pedido nao ficará no esquecimento. Imediata resposta obterei de ti. Portanto, confio e entrego em suas maos espirituais o meu problema que é… (dizer o problema e a graça desejada).Maria Bueno, sinto o meu espírito tao agitado, desesperado, amargo como fel por esta provaçao que me invade. Ser de Luz, tenha pena de mim, ajuda-me como melhor achares, faz com que tudo chegue aos caminhos certos para que a alegria, a saúde e a paz voltem ao meu espírito atormentado. Por tudo, muito obrigado(a). Em troca de tua ajuda, prometo socorrer todos que tu mandares em meu caminho, Amém.” Obrigada

http://www.mistico.com/p/oracoes/oracao_a_maria_bueno_896780.html